segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Literatura não é um jogo de cartas marcadas

Literatura não é um jogo de cartas marcadasPor Ivani Cardoso

“O bom professor é aquele que diverte enquanto ensina. Sem humor, clareza, leveza, simpatia e um olhar prático (mostrar para que serve o conteúdo ensinado) não há salvação. Mas para brincar com o conteúdo é preciso dominá-lo profundamente”. A definição é do escritor, professor, jornalista, tradutor e editor carioca Rodrigo Lacerda. Quando comenta o que é preciso fazer para incentivar a leitura na escola para os jovens, a resposta vem bem rápida: “O primeiro passo é não ter preconceitos contra o que eles gostam de ler, para que eles não nos devolvam o mesmo preconceito. O segundo passo é não apresentar a literatura como um jogo de cartas marcadas, regido por um cânone rígido, e sim apresentá-la como o que ela realmente é: um território fluido de afinidades eletivas, no qual eles terão sempre a liberdade de dizer Não gostei, mesmo que se trate de um grande autor consagrado ou de um clássico”, analisa. Nascido no Rio de Janeiro em 1969, mas morando atualmente em São Paulo, Rodrigo venceu duas vezes o Prêmio Jabuti, além de ter sido ganhador dos prêmios da Academia Brasileira de Letras, Portugal Telecom, FNLIJ e Biblioteca Nacional. Seus projetos para o próximo ano são um livro de contos, que se chamará Reserva Natural, e a continuação do livro juvenil O Fazedor de Velhos. 
Como tradutor, verteu para o português autores como William Faulkner, Alexandre Dumas, Raymond Carver, entre outros, tendo recebido o Prêmio Jabuti de Melhor Tradução de Língua Francesa, em 2009, e de Melhor Tradução, em 2010. Trabalhou em algumas das mais importantes editoras do Brasil, como a Nova Fronteira, a Editora da Universidade de São Paulo e a Cosac Naify. Atualmente, é membro do conselho editorial da Zahar. É doutorado pela Universidade de São Paulo em Teoria Literária e Literatura Comparada. 

Confira a íntegra da entrevista: 
Você escreve romance, contos e obras para crianças
e jovens. O que pulsa mais forte?

O romance, sem dúvida. A sensação de mergulhar bem fundo, prender a respiração e só respirar mais adiante é a que mais gosto como leitor e, por consequência, como escritor também.
Tudo o mais é um pouco acidental. Faço ou por encomenda ou porque nem sempre controlamos o formato daquilo que produzimos. No entanto, meu livro mais bem sucedido é um livro juvenil, O Fazedor de Velhos. Mas considero isso uma pequena ironia do destino. 

Quando começou a escrever?
Aos 25 anos, ao fazer um curso de pós-graduação sobre as fronteiras entre literatura e história, fui instado a transformar meu projeto de tese, sobre a concepção de destino em Shakespeare, em um conto. Assim escrevi o primeiro livro, O Mistério do Leão Rampante, e desisti de seguir a carreira de historiador.

Você foi uma criança leitora?
Eu diria que fui sobretudo uma criança que gostava de ler e que gostava dos livros. Mas hoje acho que li até pouco, e gostaria de ter lido muito mais.

De onde vem a inspiração?
De tudo, pessoas, lugares, lembranças, diálogos, histórias etc. Todo livro e todo personagem são resultados de uma grande mistura de experiência e observação. Sem esse liquidificador emocional tanto o livro quanto o personagem soam artificiais, duros e esquemáticos.

Você ganhou vários prêmios. Premiação vende
livros no Brasil?

Não, não vende. É um mistério, mas não vende. O prêmio serve ao escritor como currículo, como carta de recomendação para convites, bolsas etc, mas não como impulsionador de venda ou da popularidade.

Qual é o maior desafio: traduzir ou escrever?
Escrever, disparado, é bem mais difícil. A tradução, por mais complicada que seja, não envolve o enfrentamento da página em branco, o que diminui drasticamente a ansiedade e o desafio. Na tradução, a história, a psicologia dos personagens, já está tudo lá. Enquanto que, ao escrever, você precisa encontrar a emoção dentro de você, e a história.

Quem são seus escritores preferidos?
João Ubaldo Ribeiro, Eça de Queiroz, William Shakespeare e William Faulkner. Em diferentes momentos da vida, todos eles mudaram minha visão de mundo, minha compreensão das coisas. É mais do que gostar dos livros, eles tiveram um impacto real na minha vida como um todo.

Como incentivar crianças e jovens, nativos
digitais, para a leitura?

O primeiro passo é não ter preconceitos contra o que eles gostam de ler, para que eles não nos devolvam o mesmo preconceito. O segundo passo é não apresentar a literatura como um jogo de cartas marcadas, regido por um cânone rígido, e sim apresentá-la como o que ela realmente é: um território fluido de afinidades eletivas, no qual eles terão sempre a liberdade de dizer "Não gostei", mesmo que se trate de um grande autor consagrado ou de um clássico. 

Acha que essa nova geração vai deixar o livro impresso de lado?
Duvido muito. Há anos se fala disso, mas continuamos produzindo mais e mais livros impressos. Acho que para se acreditar nisso teríamos de ser um pouco autistas. Basta ver que mesmo os autores que nascem e constituem leitores nos seus blogs veem como um ritual de passagem importante o momento em que têm seu primeiro livro impresso. O livro dá uma permanência à obra.

A escola ou a família influencia mais o hábito de leitura?
Ambos influenciam e, ao mesmo tempo, ambos são impotentes, caso o jovem não tenha vocação para ler. Mas é um trabalho conjunto. O que não dá é pai e mãe que dizem ser importante ler mas, eles mesmos, não lerem. Assim como não dá para a escola tentar impor hierarquias literárias muito rígidas, que não guardam espaço para as afinidades eletivas de que falei.

O que acha da literatura infantil e juvenil brasileira?
Acho boa. No caso da juvenil, contudo, acho que subestima um pouco o fôlego leitor dos nossos jovens. Jamais um autor brasileiro faria um Harry Potter, com 500 páginas, centenas de personagens, dezenas de tramas embricadas etc. Subestimamos a inteligência dos jovens apesar de todas as demonstrações de que poderíamos exigir mais deles.

Como você vê o interesse despertado pela ilustração de livros infantis, agora até como categoria do Jabuti? Como foi a experiência de participar da última Bienal como curador do Café Literário? 
Foi divertido. Vivo muito sozinho, trabalhando em casa, e foi bom entrar em contato com tantas pessoas, fazer convites a artistas que eu admirava sem conhecer pessoalmente etc. Foi uma boa experiência.

Para você, escrever é uma tarefa solitária ou você consegue escrever durante a rotina diária?
Sim, é solitária. Mas eu gosto disso. Enquanto trabalhava dentro de editoras, sempre tive a sensação de que a parte mais desgastante não era o trabalho em si, mas lidar com as neuroses alheias – a competição, as inseguranças etc. E também prefiro trabalhar em casa porque jogo com o tempo com mais liberdade, trabalhando nos meus livros na hora em que bate a vontade, e não nos restos do dia após o expediente.

Qual é o seu grande sonho na literatura?
Meu grande sonho? Acho que já tive grandes sonhos. Agora não mais, quero só me divertir e me desafiar sempre. Gosto de mudar meu jeito de escrever constantemente.


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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Feira de Publicações Independentes no Sesc Pompeia

Feira de Publicações Independentes no Sesc Pompeia
O evento tem a participação de 50 produtores editoriais e oferece oficinas e minicursos ao longo do mês. A Feira de Publicações Independentes recebe o nome de AVESSA e acontece nos dias 12 e 13 de dezembro, reunindo produções coletivas e alternativas de diferentes linguagens das artes visuais, de todas as regiões do Brasil e de países da América Latina. A partir do dia 8 de dezembro a unidade oferece minicursos que dizem respeito ao universo das publicações. Os 55 grupos convidados para a Feira de 2015 representam regiões do Brasil e os países Argentina, Venezuela, México e Colômbia. Há várias oficinas ligadas à área de Quadrinhos.
Feira de Publicações Independentes - AVESSA
Dias 12 e 13 de dezembro, sábado e domingo, a partir das 14 horas. 
Sesc Pompeia
Rua Clelia, 93, São Paulo s 14h
Rua Central
Site


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